Boa Nova

Escrito por Xico

No final da tarde cheguei a Boa Nova, uma cidade pequena, dessas que parecem existir só para quem passa pela estrada. Comércio colado nos dois lados do asfalto, tudo muito simples, muito exposto. Aquela vibe de lugar seguro pra passar a noite de mocó.

Encostei num ponto que não dava pra saber se era bar ou lanchonete. O dono disse que já não ia fazer mais comida pra ninguém, o movimento tinha acabado, mas que como eu tava com cara de quem tinha fome podia preparar um jantar pra mim. Só alegria! Fiquei sentado esperando enquanto a mulher dele cozinhava, e a gente foi conversando.

Ele franzia a testa e olhava para o nada enquanto me perguntava como eu aguentava pedalar tantos dias seguidos. Se eu tava pagando promessa… Se eu tomava algum remédio pra dor. Disse que, quando dava umas voltinhas de bicicleta, ficava todo quebrado e nem se imaginava viajando de bicicleta pra canto nenhum… Isso eu já ouvi muitas vezes.

Expliquei que a dor existe, sim. Mas que a gente se acostuma. Só quando fico negociando demais comigo mesmo (“não consigo mais, não consigo”) é que ela cresce. Quando eu levanto, visto a roupa e subo na bicicleta, é como desligar um alarme: “Ok, já entendi. Não precisa mais apitar.”

Ele riu do meu jeito de falar, mas logo depois os olhos desandaram a ficar tristes. Disse que a mulher dele não tinha a mesma sorte. Estava com uma dor de dente absurda, e o médico mais próximo ficava a quase duzentos quilômetros dali. Tinham que esperar um carro. Enquanto isso, ela sofria.

Levantei, fui até a bicicleta, saquei uma bolsinha de dentro do balde de tinta que usava como alforge e voltei com um envelope. “Trago a Boa Nova”. Eram remédios fortes pra dor. Eu tinha ganhado amostras de uma amiga médica e estava guardando pra um momento realmente crítico, um dia em que eu precisasse seguir sem sentir nada.

Depois de tudo que eu tinha falado sobre suportar dor, me parecia covardia guardar aquilo comigo. Se eu podia aguentar, e ela não, a decisão era simples. Dei os remédios pra ela. Ela ficou feliz de um jeito difícil de explicar. Dor de dente deve ser uma das piores que existem!

Armei a barraca em frente à casa deles. A noite estava fria, depois de cozinhar dentro da barraca nos desertos escaldantes da Bahia isso era um certo alívio. Mas a dificuldade pra dormir seria outra. Carretas gigantes passavam o tempo todo na BR. O chão tremia, tudo vibrava. Eu ficava com o cu que não passava um fio do cabelo de um anjo.

Dentro da barraca, comecei a lembrar do dia inteiro pedalando pela BR, com caminhões passando a um palmo de mim. Trechos sem acostamento, asfalto ruim, veículos cada vez maiores à medida que eu avançava pela Bahia. Aquilo se revirou dentro de mim feito um cai-duro, virou angústia. Depois, pânico. “Vou morrer, vou morrer!”

Até que, em algum momento, eu lembrei de respirar. E dormi.

No outro dia, já vestido com a roupa de ciclismo fiquei parado urubservando a estrada. Quando visto aquela roupa, geralmente me sinto um super-herói imponente. Mas ali, o cagaço era tão grande que nem se eu estivesse com o Mjölnir na mão eu ia me sentir especial.

Pensei:

Acho que fiquei doido mesmo. Todo mundo fala isso. Deve ser verdade. Por que diabos eu vou entrar de novo nessa estrada pra disputar espaço com caminhão?

E, quando percebi, já tava era pedalando outra vez. Sorrindo. Sol forte. Estrada aberta no rumo da venta.

Só fiquei puto mais pra frente, quando notei que tinha esquecido o carregador do celular na casa do cara, marido da mulher com dor de dente. Mas eu já estava longe demais pra voltar.

Então segui.

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